domingo, 18 de março de 2012
sábado, 17 de março de 2012
Tradução poética, ou não tradução?
(No Atelier de Pintura do qual participo semanalmente, ali pintamos, e também refletimos: O que é a arte?)
Um poema, ou a grande literatura, como Clarice Lispector ou Roberto Balaño que acabo de ler pela primeira vez _2666, são transportados a outras línguas maternas, certamente. Mas não se pode falar em tradução. Haroldo de Campo dizia que um poema é não traduzível, e a não tradução ele chamou de transcriação. E o que é isto?
Em 1919 Victor Chilovski cria um
conceito: A arte como procedimento
estético. Para ele o poeta desloca
um objeto, um signo, uma palavra do lugar corriqueiro e banal do senso comum, e
cria um contexto que possui suas próprias leis, ou relações. Como um ideograma, cujo contexto encontra-se nas
relações entre os caracteres. Tal contexto não obedece às funções referenciais
da linguagem. Um poema, ou a grande literatura, como Clarice Lispector ou Roberto Balaño que acabo de ler pela primeira vez _2666, são transportados a outras línguas maternas, certamente. Mas não se pode falar em tradução. Haroldo de Campo dizia que um poema é não traduzível, e a não tradução ele chamou de transcriação. E o que é isto?
(Cada língua é uma cultura, uma maneira de pensar. Um chinês, por exemplo, pensa de maneira muito diferente do ocidental, pois não apenas sua escrita é ideogramática, e a língua falada não é gramatical. Um chinês não pergunta se você está com medo. Ele diz: Vejo medo em você. Para pensar a ciência ocidental, por exemplo, um chinês recorre ao inglês. Haroldo de Campos dizia que um chinês pensa em imagens, e sua escrita ideogramática é imagética. Neste sentido, a escrita ideogramática se aproxima da literatura e da poética, e se difere do que conhecemos como linguagem discursiva. Em qualquer língua literatura se faz de imagens, diferenciando-se da linguagem discursiva).
Também em 1919 Freud cria o conceito Das unhimiliche, expressão alemã cheia de ambiguidades. Como Chlovski Freud fala da perda das referências que nos levam a desconhecer um objeto, e assim, a estranhá-lo. Esta expressão, Das unhimiliche, é não traduzível. Pierre Fèdida, psicanalista francês de origem nigeriana, judeu, transporta a expressão Das unhimiliche para o francês como: o estranho íntimo. Fèdida desenvolveria o conceito de estrangeiro. Para ele o artista e o psicanalista são estrangeiros. Vivem o estranho íntimo em suas vidas. Em estado de risco, sem as garantias que a linguagem referencial procura oferecer, nos contando como é uma cadeira, por exemplo, e para o que ela serve.
Trata-se de conceitos que não apenas podemos estudar, como viver. São conceitos- vivências. O poema é da ordem do visual, do auditivo, do palpável, possui uma materialidade. As palavras e a língua materna são a matéria prima bruta do poeta. Assim, o poema pode viajar para outras línguas maternas. Mas se escutamos um poema recitado em português, talvez não o reconheçamos caso seja recitado em espanhol; duas línguas neolatinas parecidas e estranhamente diferentes entre si. Caso o poema em português seja transportado para uma língua não fonética, como o hebreu, ah, que outro poema. A qualidade da sonoridade de uma recitação pode em si, nos contar da qualidade do poema. E se olhamos para o poema na língua materna do poeta, e em seu transporte para outra língua materna, enxergamos a diferença, como se quadros que criam uma poética em seu conjunto, sendo o outro do outro.
Descobri um livro de poesia de uma autora polonesa. Poemas em português, e o original em polonês. Comprei-o após ler um poema, A alegria da escrita. E também pela capa estampando a foto da poeta diante de uma xícara de café, semi-escondida pela fumaça de um cigarro e pela mão que o segura. Trata-se de WISLAWA SKYMBORSKA, não-traduzida por: Regina Przybycien. O não-tradutor precisa como o poeta, ser poeta, ou seja, estrangeiro. Um estrangeiro em sua própria língua, que aliás, de certa forma, lhe pertence e não pertence. O poema A alegria da escrita em português e polonês são distintos visualmente, para mim que não leio polonês. Podemos enxergar diferentes desenhos e ou texturas. São diferentes desenhos, ou texturas. Seria maravilhoso se alguém aqui pudesse ler este poema em polonês. Escutar a melodia do poema em polonês.
No pequeno texto retirado do Google que enviei a vocês do Alberto Giacometti, o pintor suíço cuja exposição estará na Pinacoteca a partir de 24 de março, há algumas linhas que dizem: As personagens isoladas ou em grupos, criam um sentido de descontextualização. Esta linha diz pelo negativo, o que procuro dizer pelo positivo.
segunda-feira, 12 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Prisão
A caminho do Pacaembu, um espaço outro a arrebata _ cidade arcos praia mar, mundo terracota. É Lages, conta alguém. À beira mar o sentimento, Por favor, quero voltar, Vá ao metrô, lhe dizem, Em Lages o metrô é um barco, e atravessa a Gruta Azul, Como chego? Pela quebrada da rua, e uma mão aponta, enquanto o mar terracora murmura _ Por que criou Lages? Sabe? Existimos porque você acredita. Semicerra os olhos para olhar ao longe, e o horizonte falta. Ou se oculta.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Poema de Maria de Jesus Fortuna _ "Outono, outro tempo"
MJFortunaMar 9, 2012 02:20 PM
Querida amiga, lembrei-me da poesia que escrevi em 2002 saudando o outono...
Outono, novo tempo!
Maria J Fortuna
Outono, novo tempo!
Maria J Fortuna
Sâo esses dias de encantamento
que dormem sob minha pele
Eu os vejo como brilhantes
enfeitando meu outono
Debulhando o trigo louro
de novas expectativas...
Que privilegio ver o por de sol
e a aurora ao mesmo tempo
Nesta linda estação dourada
onde, ainda nos cachos,
as uvas guardam seu vinho maduro!
E a beleza é tão surreal
quanto o afago das luvas do sonho
Cavalgo livre de rédeas
sobre as minhas inseguranças
E ofereço vida a vida
que dormem sob minha pele
Eu os vejo como brilhantes
enfeitando meu outono
Debulhando o trigo louro
de novas expectativas...
Que privilegio ver o por de sol
e a aurora ao mesmo tempo
Nesta linda estação dourada
onde, ainda nos cachos,
as uvas guardam seu vinho maduro!
E a beleza é tão surreal
quanto o afago das luvas do sonho
Cavalgo livre de rédeas
sobre as minhas inseguranças
E ofereço vida a vida
quinta-feira, 8 de março de 2012
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