domingo, 25 de abril de 2010

MUDANÇA


MEU NOVO ESPAÇO
A CABINE DE UM NAVIO
SINGRO O DIA
DENTRO E FORA DE CASA
FORA E DENTRO DE MIM

segunda-feira, 19 de abril de 2010

DICAS






Dicas de livros que li em 2010 e que gostei muito. Daqueles que fico triste quando acabo de ler:

"A elegância do Ouriço", Barberi Muriel.
"O filho eterno", Cristovâo Tezza.
"A chave da casa", Tatiana Salen Levy.

sábado, 17 de abril de 2010

Rei Guilherme, o Breve

Guilherme, dez anos agora em setembro (2009).

Me sentia o rei, dono de minha casa e dos bichos que por aqui vivem. Tem árvores em volta dela. Sabiás, bem-ti-vis, maritacas, papagaios, uma coruja branca e outra rajada, e os gaviões. Ah, e Chiquinha, cadela de uma raça Sul Africana, que Papai acha foi maltratada antes de vir pra nossa casa. Ela é carente, e tem medo de chuva, principalmente as de raio e trovão.

Como sei que Chiquinha é carente?

Desde bebê ela mostrava os dentes para qualquer pessoa de fora, até para minhas avós Eliane e Gisela, que ainda hoje falam com ela como se a cachorra fosse gente. Acho que fazia isso por medo de ser machucada. Minhas avós fizeram de tudo para conquistar a Chiquinha, e acho que agora as três são boas amigas... mas colocar a mão no bicho nenhuma das duas coloca, apesar de bem tratá-la.

O cuidado de minhas avós com as próprias mãos veio depois de Chiquinha dar-o-chega-pra-lá na Oma, marcando seu braço com os dentes. Só arranhou, mas Oma sentiu-se traída. Se fosse comigo eu também me sentiria. Olhei para vovó Eliane e vi nela um desconcerto. Desconcertar é quando a gente se sente desconjuntado, assim meio fora do lugar. Oficina pra concertar gente não tem, como pra concertar sapato e roupa.

Um dia Alicia, nossa vizinha andava pela rua com os netos João, Pedro e Antônio, que são menores que eu. Do lado de dentro do portão Chiquinha esgoelava pros quatro. Passeavam na rua, e nem iam entrar em casa. Fiquei curioso e vim ver que barulhão era esse que minha cadela fazia, e parei pra conversar. Alicia falou:

_ Chiquinha é muito brava?!

Respondi que não, não era braveza, era carente. Contei pra Alicia e pros meninos como imaginamos a história de infância de Chiquinha. Alicia, colega de vovó Eliane, as duas são terapeutas de gente, não de cachorro. Bem, ela e os netos ficaram me ouvindo. Alicia que sempre conversa muito dessa vez ficou calada, só me olhando. Depois vovó contou que ela ficou impressionada comigo e não com Chiquinha. Se entendi bem, Alicia me acha um filósofo.

Perguntei pro papa o que é filósofo, tive dúvida se era elogio ou xingação. Papa contou que filósofo é um homem que pensa. Pensar penso, será que sou filósofo? Ah, é coisa de gente grande, nem sei se quero ser filósofo, por enquanto gosto de surfar.

Mas do que tenho saudade é de quando eu era o rei de minha casa, e daquele quintal. Até pensava em mim como Rei Guilherme. Aí aconteceu.

Um casal de gaviões fez ninho no abacateiro e botou ovo. O gavião achava que era ao dono de tudo aquilo. Falei pro Papai: "Não é justo, você que paga o IPTU". "O gavião não sabe disso", Papai falou.

Os ovos foram o máximo. A gente podia ver do escritório da Mamãe. O gavião dava rasantes em todo mundo que passava perto do abacateiro. Aconteceu comigo e com todos nós. E comecei a duvidar de meu reizismo.

Pedi pro Papai expulsar o gavião, o que ele recusou, o IBAMA ia brigar. O bichome derrubou, me atirei de barriga ao chão, pra não ser atingido pelo rasante dele.

Zanguei-me deveras quando papa falou em comprar um capacete de motoqueiro pr´eu andar no jardim. Respondi:

_ Papai, está maluco? Aqui quem manda sou eu! Se o gavião quiser ele que use capacete!

_ Por que? Você dá rasante nele?

_ Claro que não, se nem voo!

Bem, Papai não comprou capacete nenhum, no lugar disso assistimos dia a dia os ovos chocados. E cada gaviõzinho deixar o ninho, crescer e poder voar.

Os gaviões não atacam mais. Sem as crias pra proteger estão calmos. Desistir do abacateiro não desistem. Outro dia quem quase pagou o pato foi um papagaio, xereta de abacate. Achei que o papagaio ia pro papo. O gavião voavae assentava num galho de cima, e a gaviôa assentava no galho de baixo. Caçavam juntos. O papagaio xereta pulava de galho em galho. Os gaviões cercavam o bicho verde e laranja, gritando feito um montão de maritacas. Teretecoteteco, barulheira de um bando, não um só. O papagaio fugiu. Barriga cheia de abacate os gaviões deixaram, não precisavam de carne de papagaio, que deve ser dura de roer.

Desisti de ser rei e não só daquele pedaço. Muito custoso ser rei. Se eu fosse rei odiaria gaviões. Agora sei que nem Chiquinha é minha. Ela acha que é a minha dona, de meus pais, da minha irmã e da nossa casa. Vai ver por isso deu o chega-pra-lá na Oma. Se bobear, Chiquinha acha que é dona até dos gaviões. Bicada não vai levar, odeia abacate.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

CUIDADO COM O QUE DESEJA


Nina ganhou do pai o Angorá.
Chamou-o Reno, que sabia nome de rio.
O Rio Reno corre longe do agreste cerrado de Goiás, nos campos cultivados da Europa,
O Gato Reno, porém, passava seus dias com Nina.
Um gato engraçado, no grude com sua dona,
felino manhoso que seguia Nina, e abanava o rabo quando a avistava.

Um dia passeava com o Gato, no bosque de jatobás.
Nina apanha uma fava graúda no chão, acabada de cair do galho.
Gosta muito da fruta seca e áspera.
Abre a fava, com a ajuda de uma pedra.
Não era uma fava comum aquela, abrigava um gênio.
Aliás, o aprisionava.

O Gênio quase mata Nina de susto, aparecendo em alto estilo, provoca uma nuvem de poeira esverdeada. Ela precisou limpar-se do pó, batendo as mãos na roupa e no corpo, para enxergar aquele ser minúsculo, que em seguida lhe ordena, mais que pede:


_ Um desejo, menina, só um. E você me libertará.

A única testemunha do fato encantado, além de Nina, o Reno, macio e quente, enconstando nas pernas da dona e ronronando, como se nada acontecesse.
Em meio ao espanto Nina berra:

_ Quero o Reno comigo para sempre!

Desta vez, não foi uma nuvem de poeira, mas uma explosão de pó e faíscas verde musgo.
Nina cai sentada, tosse, espirra, e quando abre os olhos,
encontra em seus joelhos, um gato de porcelana igual ao Gato Reno.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

De mudanças e de diários

Estou mudando de casa.
Não mudei tanto assim em minha vida, mas cada mudança de casa é para mim também mudança de vida, outra etapa se inicia.
Mudanças são tempos de encontrar "coisas". E de perder muitas e muitas coisas. De se desfazer não apenas de objetos, mas de hábitos e formas de viver.

Nesta mudança encontrei diários, inclusive um de quando eu tinha 14/15/16 anos. No diário inocente, uma menina falava de fatos...
E de alguns acontecimentos. Relendo-o percebi que não tinha acesso, naquela idade, aos meus sentimentos como procuro hoje. Também percebi que era muito romântica e preocupada em conhecer o amor.

A diferença entre "fato" e "acontecimento"?
O fato é descritivo, direto. Por exemplo:
"Almocei da casa de vovó Lelé; encontrei com meus amigos, andei de bicicleta".

Um acontecimento não é direto, é filtrado por percepções, sentimentos, por paradoxos. Escrever esta crônica, por exemplo, gostaria que fosse da ordem do acontecimento. Esta crônica ou qualquer outro escrito.

Aconteceu comigo agora, nessa fase, de jogar fora e me desfazer de diários e mais diários. Me desfiz deles ou porque achei a linguagem confusa, ou porque eram "diretos" demais, factuais.

Do pequeno diário vermelho de couro que mencionei acima, no entanto, não me desfiz. Ainda. Ele é resvalado por acontecimentos, e tem histórias engraçadas. E tenho agora uma neta que tem a idade que eu tinha no tempo do diário. Resolvi que vou mostrá-lo a ela, que é muito curiosa de como eu era quando jovezinha. Isso transforma aquele diário em um acontecimento? Acredito que sim. Um encontro entre o passado e o presente, revelando uma jovem que hoje é avó.
Postado por Eliane Accioly às 17:10
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Poesia aqui e ali

Foi fazer uma ultrasonografia mamária.
Entediada, assustada mesmo sem perceber.
O médico, parece um menino e lhe pergunta:

_ A senhora tem filhos?

_ Tenho três filhas, todas mães, tenho vários netos.

Ali deitada percebe, na TV de onde pode assistir ao exame, o mar alto.
Afirma ao médico:

_ Mas o que vejo é o mar!

_ Sim, parece o mar _ o médico responde.

_ O corpo humano inteiro é assim? Como o mar?

_ Não, só as glândulas mamárias.

_ Só os seios? Incrível! _ Ela diz.

_ O pior é que é _ Responde o médico.

Por um instante, a senhora avó e o jovem médico, seres humanos nos mistérios da vida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Arte e a Psicanálise no Terceiro Milênio

DAS UNHEIMLICH _ Um Texto Freudiano de 1919

Apresentação na Jornada do Departamento de Formação em Psicanálise, Sedes Sapientiea, São Paulo, Outubro de 2009
Eliane Accioly

Coloquei assim, no terceiro milênio, pela atualidade do texto freudiano, e do texto de Victor Chklovski, um autor da poética e semiótica russas, que abordarei aqui, juntamente com Freud.
Trabalho com o UNHEIMLICH desde a década de 80. Elejo a tradução de estranho-íntimo. A escolha da expressão para traduzir um conceito é muito maior que apenas a tradução de palavras. Indica uma direção do pensamento, e a tomada de um posicionamento ético no mundo.
Pesquiso as aproximações e diferenças entre a prática clínica e a literária. Foi bastante difícil escrever o texto para esta apresentação, porque mais que um campo conceitual, o estranho-íntimo tornou-se a parte mais central do território de minha pesquisa, que caminha pelas fronteiras entre o fazer artístico, e minha maneira de compreender e viver a clínica. E mais que isto, encontrar um jeito de estar na vida, da forma mais abrangente.
Esse processo começou justamente pelo desejo, ou talvez mais ainda, pela necessidade de construir um jeito de pensar minhas duas práticas, meus dois ofícios, o que faço. Ou seja, as diferenças e pontos de intersecção entre os processos arte e psicanálise, e como esses afetam e transformam minha vida.
Voltando ao assunto de hoje, Freud lançou DAS UNHEIMLICH em 1919. Em 1917 o formalista russo, Victor Chklovski publicou A ARTE COMO PREOCEDIMENTO. Os dois autores que provavelmente nunca souberam da sincronia de seus respectivos trabalhos, tanto temporal como de conteúdo, trataram da suspensão do sentido habitual de um objeto. Ambos os textos visitaram a ciência da estética. E mais que isto, contribuíram para a construção desta. Suas concepções vigoram em nossa atualidade. (Vigorar no Houaiss tem dois sentidos: o sentido do vigor, da força, vitalidade. e atualidade. E o de ter vigência, ou seja, ser atual).
A pesquisa da dissertação de mestrado, publicada como "A palavra in-sensata, poesia e psicanálise", teve como eixo principal o conceito de procedimento estético. Por procedimento estético compreendo, em linhas bastante gerais, os artifícios que provocam a suspensão do sentido habitual de um objeto. O incrível é que cada procedimento estético é único e não mais se repete. Um poema é procedimento estético, assim como um sonho, uma sessão analítica, e por aí vai. Por meio de um procedimento estético, o objeto é retirado de seu contexto habitual, colocado num contexto singular, e então, visto sob novas luzes. Aí não mais será aquele objeto, mas um outro objeto, sempre em devir.
Em "A palavra in-sensata" o objeto com que trabalhei foi a palavra, matéria prima tanto do poeta como da escuta psicanalítica. No entanto, a palavra do poeta assim como a da escuta psicanalítica, ao mesmo tempo em que pertence à lingüística, é uma palavra fenomenológica. Isto é, uma palavra da ordem do acontecimento. Tanto que foi necessário aos estudiosos a criação de um outro campo, o da poética, para que os lingüistas os deixassem em paz. Uma paz sempre relativa.
DAS UNHEIMLICH traz um campo fenomenológico para a psicanálise. Um campo do acontecimento, da imanência, do devir. Do “happening”.
No seu ensaio Freud fala do estranhamento como uma percepção, um sentimento, um fenômeno. Trata-se de uma forma de percepção bastante específica. Não a percepção do senso comum. O estranho íntimo não é sonho, mas é parente do sonho, pois como no sonho, no UNHEIMLICH acontece a suspensão do senso comum. É também parente do poema, pela mesma razão.
Aquilo que é UNHEIMLICH provoca sentimentos que se acompanham por sensações. Podemos sentir um arrepio, um impacto, uma vertigem, um horror, um maravilhamento, vontade de rir, um nó na garganta. O texto freudiano possui diferentes vertentes, incluindo a do inconsciente recalcado. Meu recorte será o fenomenológico, que implica em uma forma expressiva de percepção e consciência.
Freud ilustra DAS UNHEIMLICH com suas próprias vivências. Ele viajava num trem, quando avista um homem sério, envelhecido, por quem sente pouca simpatia. Em fração de segundo, reconhece que “aquele senhor” era seu próprio vulto refletido no vidro da janela. No mesmo artigo, Freud conta da sensação de se encontrar perdido, dando voltas circulares em um local que, se não me engano, era uma cidade italiana. Acrescenta em seguida sua percepção que as ruelas pelas quais vagava, eram as de uma zona de prostituição.
Na época positivista em que viveu, Freud se defende acrescentando que, ele mesmo era pouco propício a sentimentos de estranhamento. No entanto, o sentimento de estranhamento é próprio do artista, do analista e de todos os seres humanos, principalmente à medida que se desenvolve a sensibilidade própria à arte. Ou à escuta analítica. Sem estranhamento não há arte. E sem o estranhamento não pode haver escuta analítica. Ao criar a psicanálise certamente Freud viveu muito estranhamento. E até nos contou deles, em vários momentos de sua obra.
Um fenômeno UNHEIMLICH é um acontecimento da ordem da estética. Vivemos e aos poucos ganhamos consciência do que estamos vivendo. Ou do como vivemos o que estamos vivendo. Clarice Lispector dizia: “Não há começo nem fim”, referindo-se não apenas ao processo de sua escrita, mas à vida, pois a vida entra em seus textos. Clarice dizia: “Sobrenatural é a vida”.
Gilles Deleuse, filósofo francês, usou o tempo como principal dimensão para a construção de seu trabalho. Ele dizia que o eixo temporal do acontecimento é paradoxal. No acontecimento o impacto estético nos coloca no tempo da simultaneidade. Como somos lentos, não nos damos conta da simultaneidade temporal na vivência de um acontecimento.
A vivência de um fenômeno UNHEIMLICH cria em nós um corpo de sensações. Eventualmente, o corpo de sensações pode vir a ser um instrumento, e podemos usá-lo para compreender a sessão analítica. Ou compreender uma obra de arte. Ou, simplesmente, compreender o momento que vivemos. Quando vivemos e experimentamos somos sujeito-processo, e não observadores. Ao viver o processo nos tornamos parte indissociável dele.
Em "Corpo-de-sonho arte e psicanálise", tese de doutorado, desenvolvo o conceito de corpo-de-sonho, ou corpo de sensações, instrumento a ser usado pelo artista ou pelo analista. Assim como pelos nossos pacientes. Potencialmente é próprio de todo ser humano.
Na vigência do corpo-de-sonho ou corpo-de-sensações estamos em estado de
risco. Ou seja, é necessário o consentimento do sujeito-processo para estar em estado de risco. Como é isso? No estado de risco consentimos em abandonar o saber suposto e as referências conhecidas. Vivemos então, o não saber. Mas ao viver o que não sabemos, podemos nos apropriar de referências que brotam de nós, por exemplo, o que percebemos como um frio na barriga, um aperto no peito, um sentimento de mal estar, sono, aborrecimento, vontade de rir. Ou outros indicadores. As referências também brotam de nossa percepção das circunstâncias que nos envolvem.. Ou seja, Deixando de lado o saber suposto, apenas nos apropriando do que ocorre em nós e fora de nós, criamos um corpo-de-sensações.
Compreendo a sessão analítica como campo de estranhamento. Posso permanecer em perfeito silêncio, sem nada confessar ao meu paciente, apenas me percebendo e me apossando de minhas sensações, ou dos sentimentos que me ocorrem. Ou seja, usando o que percebo em mim e na sessão, inclusive na expressão do paciente, em sua postura corporal, nas tonalidades de sua voz _ para obter algumas referências. Quando faço assim ganho a possibilidade de compreender melhor o que meu paciente está vivendo.
As referências que encontramos não significam que vamos saber o que não sabemos. Aí não seriam referências, mas garantias. Usando o estranho íntimo como instrumento, ou seja, aceitar viver a forma de consciência que é o estranhamento, quando temos sorte, nos coloca diante do que nem podíamos imaginar; como Freud se espantando com sua própria imagem refletida.
O estranho íntimo sempre nos surpreende, e para mim ele mostra que vida se faz por contágio. E também, que a vida está em qualquer dos campos de nossas pesquisas. A vida está inclusive no campo de quem trabalha com ciências exatas: ou seja, nada é absolutamente exato. A vida está em nossa escuta, no encontro com nosso paciente. Muitas vezes, as próprias teorias estéticas correm o risco de esterilizar a vida.
Pierre Fédida dizia que precisamos procurar uma maneira de abordar a arte que seja própria da arte. Da mesma forma, uma abordagem do material clínico que seja própria a ele. Embora falemos tanto em discurso, não trabalhamos com o discursivo. Estamos muito mais próximos à poética. A poética conhece profundamente as regras gramaticais, para desmanchá-las. Mas a poética não é um território sem lei. Para ela o rigor é fundamental. Posso dizer brevemente que rigor poético é a excelência da forma, ou seja, o procedimento estético que vigora e atualiza um objeto. Não há separação entre forma e conteúdo, pois o que há é processo.
Essas questões são paradoxais. Em psicanálise trabalhamos com o paradoxo e com o processo, mesmo quando não chamamos assim. Gosto de contar histórias, e as crianças pequenas, entre três e sete anos costumam me perguntar:
_ O que você contou é de verdade ou de mentira?
_ Você sabe o que é imaginação?
Elas geralmente sabem o que é imaginação. Então pergunto:
_ Sua imaginação é de verdade ou de mentira?
_ De verdade! E há um quê de indignação na resposta.
_ Então, o que conto é de verdade ou de mentira?
_ É da imaginação, elas respondem.
Uma categoria onde não há verdade ou mentira, mas outros mundos. Como no sonho, nas sessões, nos mitos, nas histórias contadas pelas avós.

O que tentei foi oferecer a vocês foi uma síntese de meu trabalho.

(Fecho o texto, que aproveitei como um espaço para mostrar um pouco de meu trabalho para vocês, com algumas questões:
A arte não é apenas enxergar de uma maneira especial e única, a arte é processo de expressão, mas principalmente de reflexão. A reflexão sobre o fazer artístico, por exemplo. Da mesma maneira, a sessão analítica é um campo de reflexão para analista. Assim o analista ajudará seu paciente a refletir e conhecer melhor sua própria vida. A terapia é um campo de experiências e de aprendizagem. Não a aprendizagem didática, mas o saber de si, do qual o paciente pode se apropriar.
Uma questão que sempre me parece bastante instigante e inesgotável: DAS UNHEIMLICH não é algo da ordem da representação, mas da apresentabilidade. E da experiência).
Numa próxima jornada gostaria de desenvolver essas e outras questões.